Teologia Sistemática Vol. I, 1872, Charles Hodge, “A Existência do Mal”.

A Existência do Mal

Como pode a existência do mal, físico e moral, ser reconciliado com a benevolência e sacralidade de um Deus infinito na sua sabedoria e poder? Esta é a questão que exercitou a razão e testou a fé dos homens em todas as eras do mundo. Tal é a distância entre Deus e o homem, tal é a fraqueza dos nossos poderes, e tão limitada é a extensão da nossa visão, que talvez pareça razoável deixar esta questão ser respondida pelo próprio Deus. Se uma criança não pode racionalmente assumir o direito de julgar a conduta dos seus pais, nem um campesino compreender os problemas de gestão de um império, nós certamente também não somos competentes para pedir justificações a Deus, ou pedir-lhe a razão para as suas decisões. Talvez possamos ficar satisfeitos com a garantia de que o Juiz de toda a terra faz o correto. Estas considerações, contudo, de nada serviram para evitar a especulação neste tópico. A existência do mal é constantemente citada pelos céticos como um argumento contra a religião; e está constantemente nas mentes dos crentes como uma dificuldade e uma dúvida. Embora seja o nosso dever obedecer à injunção “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus”, também é igualmente nosso dever protestar contra aquelas soluções deste grande problema que ou destroem a natureza do pecado ou a natureza de Deus.

Teorias que envolvem a negação do pecado

A maioria das teorias propostas para explicar a existência do mal, classificam-se sob uma das três seguintes classes: Primeiro, aquelas que realmente ou virtualmente negam a existência do mal no mundo. Aquilo que chamamos de mal é distinguido em físico e moral, dor e pecado. Tem alguma plausibilidade o argumento pelo qual se prova que a dor não é necessariamente um mal. É necessário à segurança das criaturas sencientes. Mas a dor existe bem para além dos limites desta necessidade. Tal é a quantidade e variedade de sofrimento no mundo, sobre justos e injustos, e crianças e adultos, que nenhuma filosofia pode abafar a convicção de que a miséria que pesa tão imensamente sobre os filhos dos homens, é um mal aterrador. Não há maior teste à nossa fé, que ver uma criança sofrer dores excruciantes. Se, contudo, a dor pudesse ser removida da categoria do mal, com o pecado já não seria tão fácil. O mundo jaz em perversão. A história do homem é, em grande medida, a história do pecado. Se Deus é sagrado, sábio e omnipotente, como podemos explicar esta prevalência de largo escopo e de longa continuidade do pecado?

Uma solução passa por negar que pecado é um mal. Por outras palavras, é negado que há tal coisa como o pecado. Aquilo que tanto vemos é, como alguns defendem, nada mais que a limitação do ser. Para estar livre do pecado, temos de estar livres da limitação, i.e. infinitos. Não é um mal que uma árvore seja mais pequena, menos bonita, ou menos valiosa que outras; ou que uma planta não tenha a vida sensitiva de um animal; ou de que todos os animais não tenham os poderes racionais do homem. Tal como na floresta, vemos árvores de todos os tamanhos e feitios, desenvolvidas perfeita e imperfeitamente, e esta diversidade é em si boa; da mesma forma entre homens encontramos uns mais, outros menos conformados ao padrão ideal da razão e correção, mas isto não é um mal. É apenas diversidade de desenvolvimento; a multiformidade de formas de uma vida inesgotável.

Outros dizem que aquilo que chamamos de pecado é a condição necessária da virtude. Não pode haver ação sem reação; nem força sem obstáculos para serem superados; nem prazer sem dor; nem virtude sem defeito. A bondade moral é domínio sobre o mal moral. Não pode haver um sem o outro. Tudo estaria morto e sem movimento, um mar parado, se não fosse este antagonismo.

Outros, novamente, dizem que o mal tem apenas uma realidade subjetiva. É análogo à dor. Umas coisas afetam-nos de forma agradável, outras desagradável; umas provocam a auto-aprovação, outras desaprovação. Mas isto diz respeito apenas a nós. Deus tanto não participa nos nossos juízos como nas nossas sensações.

Outros não negam declaradamente a existência do pecado. Admitem não só de que é um mal para nós, como também involve culpa aos olhos de Deus e por isso deve ser castigado. Todavia, representam-no como necessariamente emergente da constituição da nossa natureza. Todas as criaturas estão sujeitas à lei do desenvolvimento – a uma “Werden”. A perfeição é um objetivo a ser alcançado por um processo gradual. Esta lei controla todas as esferas da vida vegetal, animal, intelectual e moral. Toda a planta desenvolve-se de uma semente. Os nossos corpos começam de um embrião; a infância é débil e sofrida. As nossas mentes estão sujeitas à mesma lei. Estão, por necessidade, abertas ao erro. A nossa vida moral não é uma exceção a esta regra. Seres morais, pelo menos aqueles constituídos do mesmo jeito que nós, não podem evitar o pecado. Está ligado à sua natureza e condição. É algo por que se tem de passar ao longo da vida e superado. Se o mundo é de tal forma constituído e guiado de modo a haver um progresso contínuo na direção da perfeição; se todo o mal, e especialmente todo o pecado, forem eliminados por este progresso, a sabedoria, bondade e sacralidade de Deus serão deste modo autenticadas. Bruch questiona, “porque Deus [der heilige Urgeist] trouxe os homens ao mundo com apenas a potencialidade da liberdade [que para ele inclui a perfeição], e não com a atualidade, e deixou essa perfeição para ser obtida por um longo processo de desenvolvimento? A única resposta para essa questão”, diz ele, é de que “esse desenvolvimento reside na própria natureza do finito. Este tem de lutar pela perfeição por meio de um processo sem fim, sem nunca chegar à sua plenitude. Também podemos questionar porque Deus decretou que a árvore se deveria desenvolver de uma semente? Ou porque a terra em si passou por tantos períodos de mudança, sempre de um estado mais rasteiro para um mais nobre? Ou porque o universo é feito de coisas finitas, e é em si finito?” Ainda acrescenta a consideração “de que Deus, com a possibilidade do pecado, providenciou a redenção pelo qual é superado, expulso e engolido”. “A aniquilação do pecado é o desígnio de todo o trabalho de redenção. ‘Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo’ (1João 3:8). O pecado, contudo, desaparecerá apenas quando, não apenas o indivíduo por si mesmo, mas toda a raça humana alcançar a meta do seu destino, – e quando” pergunta ele, “isto acontecerá?” Esta questão deixa por responder. Numa página mais adiante, contudo, cita Klaiber dizendo: “A revelação divina dá-nos a única resposta possível e satisfatória à questão, de como a existência do pecado pode ser reconciliada com a sacralidade de Deus, uma resposta que satisfaz não apenas os nossos sentimentos piedosos, mas também as nossas especulações antropológicas e teológicas, no sentido de que dá-nos a conhecer a verdade de que Deus determinou na criação dos seres, os quais, como agentes livres, estavam sujeitos à possibilidade do pecado, e que por sua própria culpa se afundaram em maldade, em conexão com a redenção; de modo que o pecado é apenas um fenómeno transiente e em dispersão no desenvolvimento de seres finitos. Esta é a grande ideia que permeia toda a revelação; na verdade, é a sua essência e a sua finalidade”.

É obvio que todas as teorias que fazem do pecado um mal necessário, destroem a sua natureza como está revelada na Escritura, e na nossa própria consciência.

Pecado considerado como um meio necessário ao bem maior

Uma teoria bem mais plausível, pertencente à classe daqueles que virtualmente, embora não professadamente, destroem a natureza do pecado, é aquela que o encara como o meio necessário para o bem maior. Pecado, em si mesmo, é um mal; relativamente, é um bem. O universo é melhor com ele do que sem ele. Em si mesmo, é um mal que os animais mais pequenos sejam devorados pelos maiores; mas como isto é necessário para a prevenção do desenvolvimento desadequado da vida animal, e porque beneficia as formas de vida mais elevadas, acaba por ser um arranjo das coisas benevolente. A amputação de um membro é um mal; mas se necessário para salvar uma vida é um bem. As guerras são males terríveis, porém o mundo deve às guerras a preservação das liberdades civis e religiosas, são assim um preço baixo a pagar. É melhor ter uma guerra do que perder a liberdade com a qual Cristo nos tornou livres.  Assim, se o pecado for o meio necessário para o bem maior, deixa de ser um mal, levando tudo em consideração, e é perfeitamente consistente com a benevolência de Deus permitir a sua ocorrência. Este tem sido um método favorito para resolver o problema do mal em todas as eras. Esta é a ideia que Leibniz trouxe ao de cima de forma elaborada no seu Théodicée. Tem sido adotado por muitos teólogos que não o levam às suas consequências legítimas. Assim, Twesten diz: “Se o mundo está absolutamente dependente do Ser mais perfeito; se é a obra do mais elevado amor, poder e sabedoria; e se é constantemente controlado e governado por Deus, então tem de ser absolutamente perfeito”. Desta forma, até mesmo o pecado, embora como a dor, um mal em si mesmo, tem de, levando tudo em consideração, ser um bem. É um elemento necessário num mundo perfeito. Twesten, porquanto, diz, “se o mundo, com o pecado e miséria que contém, produz uma maior quantidade de bem, e revela o poder e amor divino de forma mais plena do que de outra maneira possível, então a consistência entre a existência do mal e a causalidade universal (ou governo) de Deus é autenticada”. A palavra “bem” nesta ligação, segundo a doutrina comum dos otimistas, não significa bem moral, mas felicidade. O princípio sobre o qual esta teoria está fundada foi proposta num tratado póstumo do presidente Edwards, no qual ensinou que a virtude consiste no amor pelo ser. Este princípio foi adotado e defendido pelos Drs. Hopkins e Emmons nos seus sistemas teológicos, que por muitos anos tiveram uma grande influência neste país.

Objeções a esta teoria

Por plausível que esta teoria pareça, está sujeita a muitas objeções:

1. Em primeiro lugar, não temos qualquer direito de limitar a infinitude de Deus. Dizer que este é o melhor mundo possível, é dizer que Deus não pode fazer nada melhor; que é o mesmo que dizer, salvo o mundo seja infinito, que Deus é finito. É suficiente para nós acreditar que o mundo com os seus resultados finitos, é o que Deus na sua sabedoria viu apropriado para trazer à existência; mas que isso foi o melhor que Ele poderia ter feito, é uma suposição gratuita e depreciativa.

2. Não é escritural, e é contrário à nossa razão moral, fazer da felicidade o fim da criação. A Bíblia declara a glória de Deus, um fim infinitamente mais elevado, ser a causa final para a qual todas as coisas existem. É o juízo instintivo dos homens, que a sacralidade ou excelência moral é um bem maior que a felicidade. Mas, nesta teoria, a sacralidade não tem qualquer valor exceto como um meio de produzir a felicidade. Nisto não se pode acreditar, exceto sob um protesto da nossa natureza moral. A teoria em questão, como tal, resolve o problema do mal negando a sua existência. Nada é um mal se tender para a felicidade maior. Pecado é o meio necessário para o bem maior, e como tal não é um mal.

A doutrina de que Deus não pode impedir o pecado num sistema moral

O segundo método geral de reconciliar a existência do pecado com a benevolência e sacralidade de Deus, é, não negando que o pecado, mesmo tudo considerado, é um mal; mas afirmar que Deus não pode bloquear todo o pecado, ou mesmo a presente quantidade de pecado, num sistema moral. Assume que a certeza é inconsistente com o livre-arbítrio. Qualquer tipo ou grau de influência que torne certo como um agente livre vai agir, destrói a sua liberdade na ação. Ele tem sempre de ser capaz de agir contrariamente a qualquer grau de influência exercida sobre si, ou deixa de ser livre. Deus, como tal, por necessidade limita-se a si mesmo quando cria agentes livres. Estão para além do seu controlo absoluto. Pode arguir e persuadir, mas não pode governar.

Esta doutrina de que Deus não pode eficazmente controlar os atos de agentes livres sem destruir a sua liberdade, é tão contrário à Escritura, que nunca foi adotado por qualquer parte organizada da Igreja Cristã. Alguns teólogos servem-se dela numa emergência, quando tratando deste problema, embora esteja em completa discordância com os seus sistemas. Twesten, p.e., que, como vimos, num sítio ensina que Deus voluntariamente permite o pecado como o meio necessário para trazer o bem maior, noutro lugar diz que Ele não o pode evitar num sistema moral. Diz ele que sem destruir a liberdade, Deus não pode evitar o seu abuso. Se este é o caso, então Deus não pode governar agentes livres. Não pode assegurar a realização dos seus propósitos , ou das suas promessas. Não há qualquer segurança no triunfo do bem no universo. Os anjos e os santos no céu podem todos pecar, e o mal tornar-se dominante e universal. Nesta teoria, toda a oração para que Deus mudasse os nossos corações, ou os corações dos outros, torna-se irracional. Tudo isto é •tão contrário aos ensinamentos da Bíblia, que em todo o lado afirma a soberania e supremacia de Deus, declarando que os corações dos homens estão nas suas mãos, e de que Ele os torna como os rios de água; •que Ele faz o seu povo volir no dia do seu poder, obrando neles vontade e ação, segundo a sua boa vontade; é •tão inconsistente com a promessa de conceder arrependimento e fé, com a afirmação do seu poder de mudar o coração; é •tão incompatível com as esperanças e confiança do crente, de que Deus o pode prevenir de cair; e •tão subversivo da ideia de Deus como está presente na Bíblia e revelada na nossa natureza, que a Igreja tem, praticamente em completa concordância, preferindo deixar o mistério do mal inexplicado, em vez de procurar a sua solução num princípio que sabota os alicerces de toda a religião.

A doutrina escritural

O terceiro método para lidar com esta questão é ficar satisfeito com os pronunciamentos simples da Bíblia. A Escritura ensina, 1. Que a glória de Deus é o fim ao qual a promoção da sacralidade, e a produção da felicidade, e todos os outros fins estão subordinados. 2. Que, como tal, a automanifestação de Deus, a revelação da sua infinita perfeição, sendo a mais elevada concebível, ou bem possível, é o fim último de todas as suas obras na criação, providência e redenção. 3. Como criaturas sencientes são necessárias para a manifestação da benevolência de Deus, não poderia haver qualquer manifestação da sua misericórdia sem miséria, ou da sua graça e justiça, se não houvesse pecado. Do mesmo modo que os céus declaram a glória de Deus, também Ele engenhou um plano de redenção, “Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef. 3:10). O conhecimento de Deus é a vida eterna. É para as criaturas o bem mais elevado. E a promoção desse conhecimento, a manifestação multiforme das perfeições do Deus infinito, é o fim mais nobre de todas as suas obras. Isto é declarado pelo apóstolo ser o fim contemplado, tanto no castigo dos pecadores como na salvação dos crentes. É um fim ao qual, diz ele, nenhum homem pode objetar. “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;
Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” (Rom. 9:22-23). O pecado, como tal, segundo a Escritura, é permitido, para que a justiça de Deus possa ser conhecida no seu castigo, e a sua graça no seu perdão. E o universo, sem o conhecimento destes atributos, seria como a terra sem a luz do sol.

A glória de Deus sendo o fim maior de todas as coisas, não estamos obrigados a assumir que este é o melhor mundo possível para a produção da felicidade, ou até mesmo para assegurar o maior nível de piedade entre criaturas racionais. Este mundo está sabiamente adaptado ao fim para que foi desenhado, nomeadamente, a manifestação das multiformes perfeições de Deus. Que Deus, ao se revelar, promove o bem maior das suas criaturas, de forma consistente com a promoção da sua própria glória, pode ser admitido. Mas inverter esta ordem, fazendo do bem da criatura o fim mais elevado, é perverter e subverter todo o sistema; é pôr os meios no lugar do fim, subordinar Deus ao universo, o Infinito ao finito. Isto de pôr a criatura no lugar do Criador, perturba os nossos sentimentos e convicções morais e religiosas, assim como a nossa compreensão intelectual de Deus, e da sua relação com o universo.

Os teólogos mais antigos quase unanimemente fazem da glória de Deus a epítome, e o bem da criatura o fim subordinado de todas as coisas. Twesten, de facto, diz que não faz qualquer diferença se dizemos que Deus apresenta a sua glória como fim último, e, para esse propósito, determinou-se a produzir o mais alto grau de bem; ou se dizemos que Ele planeou o bem maior das suas criaturas, da qual a manifestação da sua glória flui por consequência. Contudo, faz toda a diferença do mundo, se o Criador está subordinado à criatura, ou a criatura ao Criador; se o fim é os meios, ou os meios o fim. Há uma grande diferença entre ser a terra ou o sol o centro do nosso sistema solar. Se fazemos da terra o centro, a nossa astronomia ficará numa confusão. E se fizermos da criatura, e não Deus, o fim de todas as coisas, a nossa teologia e religião ficarão do mesmo modo deturpadas. Pode ser, em conclusão, seguramente afirmado que um universo construído para o propósito de fazer Deus conhecido, é muito melhor que um universo desenhado para a produção de felicidade.

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